Por Ivanaldo Mendonça — Na obra intitulada ‘Deus é Jovem’, publicada em 2018, o jornalista e escritor Thomas Leoncini entrevista o Papa Francisco a respeito da juventude e dos fenômenos relacionados a esta fase do desenvolvimento humano. No terceiro capítulo do livro, dedicado á relação entre ‘ensinar e aprender’, de forma pertinente, o autor inquere o pontífice sobre diversos assuntos: futuro, educação, cultura, liberdade, pós-verdade e fake news.

Por diversas vezes ao longo da obra, Francisco recobra o pensamento do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, falecido em 2017, considerado um dos maiores pensadores de nossos tempos. Baumam caracteriza a sociedade atual como ‘sociedade líquida’ em contraposição á ‘sociedade sólida’ por ela suplantada. Nos tempos líquidos predominam a rapidez e velocidade que impactam em todas as dimensões da vida humana, sobretudo, sobre os relacionamentos interpessoais.

Nesse sentido emerge o tema da fugacidade. De maneira simples e objetiva, fugaz é sinônimo daquilo que é transitório ou efêmero, algo que dura pouco, também relacionado ao verbo escapar e fugir. Francisco evoca o termo fugacidade para referir-se á cisão ou quebra estabelecida pela sociedade líquida que impõe o predomínio do momento sobre o tempo, o predomínio do agora sobre o eterno. Expressões tais como ‘que seja eterno enquanto dure’ e ‘foi bom enquanto durou’ ilustram bem esse pensamento.

Enquanto a compreensão de tempo insere-nos em relações estáveis e duradouras, exigindo reflexão, por exemplo, sobre a relação causa-efeito, a fugacidade envolve-nos na rapidez e superficialidade, restringindo as relações a níveis sensoriais, aprisionadas ao prazer imediato. Impera entre nós a forte tendência de viver o momento como se fosse o tempo, o que, justifica as muitas dificuldades encontradas, pessoal, institucional e socialmente, para lidar, sobretudo, com adolescentes e jovens.

“Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. Esta expressão de Baumam e a relação entre tempo e momento resgatada pelo Papa Francisco iluminam o caminho, inspiram a reflexão e, consequentemente, possibilitam-nos crescer na compreensão dos fenômenos próprios do nosso tempo, apresentando alternativas que viabilizem e promovam o diálogo com as novas gerações, alimentando atitudes concretas de acolhimento, discernimento, acompanhamento e inserção.

Ivanaldo Mendonça

Padre, Pós-graduado em Psicologia

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