Por Ivanaldo Mendonça — O tão conhecido ‘pecado original’ advogado pela teologia judaico-cristã como causa primeira de todas as mazelas humanas, a começar pela morte, não obstante divergências de caráter interpretativo, retrata a rebeldia humana frente á condição de criatura. As conseqüências da quebra do equilíbrio natural não usurpou do homem a liberdade, assim como não o privou das conseqüências de suas escolhas.

O mal busca alojar-se no íntimo de cada coração e de todos os corações. Note-se que, contrariamente ao que muitos pensam, ele não quer, necessariamente, destruir, mas, antes de tudo, possuir. Longe também de possuir, necessariamente, de maneira perceptível e/ou física, ele invade cada homem e todos os homens, discreta e silenciosamente, de maneira que, diante das implosões ou explosões consequentes de seu domínio, nada possa ser feito.

O uso deturpado do poder é um dos caminhos sutis, através dos quais as forças do mal buscam impor-se. Servindo-se de algo teoricamente bom e saudável, tanto ao indivíduo quanto á coletividade, o mal introjeta neles e, através deles, domínio e destruição. A quem opta pelo bem se faz necessário observar, aprender e desenvolver habilidades para resistir a tais investidas, aniquilando as forças do fermento da maldade.

A experiência nos proporciona lidar com questões dessa natureza. Ensaiamos descrever, de forma simples e objetiva, uma possível estratégia de persuasão do mal, através do uso deturpado do poder, intermediado, sempre por homens, organismos e estruturas que a ele aderem, conscientemente ou não. O mal, suas forças e agentes agem assim:

  1. Aproxima-se discreta e desinteressadamente de nós;
  2. Mapeia nossas virtudes, limites e imperfeições;
  3. Acessa registros íntimos de nossa memória e coração;
  4. Infla nosso ego, através de elogios e favores; sugere sermos melhores que os demais;
  5. Aguça nossas mágoas, raivas e desejos de vingança;
  6. Faz-nos investir, também, discretamente, contra possíveis adversários, acirrando tensões e conflitos;
  7. Serve-se de nossas atitudes, tanto para defender-se quanto para acusar-nos;
  8. Convence-nos de que somos insubstituíveis;
  9. Afasta-nos e isola-nos de tudo e de todos;
  10. Favorece nossa ascensão ao poder, promove-nos;
  11. Ao conseguir o que objetiva, remove-nos, discretamente, como se nos ajudasse;
  12. Reinicia o ciclo de posse e destruição, em nós, através de nós e de outros;

Ao mesmo tempo em que estão ao alcance de todos, os recursos que nos possibilitam lidar com questões dessa natureza não estão disponíveis no mercado. Há que se reconhecer a necessidade do cuidado e promoção da saúde espiritual, sem a qual, tudo aqui parece, conto de fadas, ou, no máximo, especulação de caráter religioso. 

Ivanaldo Mendonça

Padre, Pós-graduado em Psicologia

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