ESPECIAL DO DIÁRIO — A cidadania que o médico Selim Jamil Murad já carregava havia quatro décadas no afeto, no trabalho e na vida familiar tornou-se oficial na noite desta sexta-feira (14). Diante de familiares, amigos e representantes do município, ele recebeu da Câmara o Título de Cidadão Honorário de Olímpia. Texto e fotos Leonardo Concon



A abertura teve a leitura do Evangelho por Moira Benatti Murad, filha do homenageado. Na sequência, as cantoras Jerusa Souza e Kelly Ramos, do Projeto Nega Preta, interpretaram os hinos Nacional e de Olímpia.

A solenidade reuniu reconhecimento público e lembranças pessoais. Selim recordou a chegada definitiva à cidade, em 1985, falou das pessoas que moldaram sua trajetória e enfrentou o trecho mais doloroso de seu discurso ao homenagear a filha Maila, morta em 2020.

“Minha filhinha Maila, eu adoraria que você estivesse fisicamente aqui comigo. Saudades de ouvir você me chamar de Papito. Mas tenho absoluta certeza de que sua energia e seu espírito estão entre nós”, declarou.

A voz embargada e o silêncio no plenário marcaram o momento. “Perder um ente querido é algo muito forte, mas perder um filho é uma lágrima que não seca jamais”, completou.

Reconhecimento da Câmara
Autora da homenagem, a vereadora Sônia Guerra apresentou a trajetória do médico e afirmou que o título reconhece uma vida marcada por diferentes formas de participação na comunidade.

“Selim não escolheu um único papel. Ele viveu todos eles com inteireza”, declarou.
Sônia também destacou a presença do homenageado na vida das pessoas. “É aquela pessoa rara que passa pelas vidas deixando marcas, não pelo barulho que faz, mas pela paz que transmite.”

Segundo a vereadora, a história de Selim representa “um farol de ética para a medicina, de amor para a família e de inspiração para toda a comunidade”.

Amizade nos momentos alegres e difíceis
Ao falar em nome dos amigos, o médico e ex-vereador João Wilton Minari recordou a convivência iniciada quando Solange, sua amiga desde a infância, apresentou-lhe o então namorado.

“Selim sempre foi meu amigo nas comemorações e, principalmente, nas horas difíceis que passamos na vida”, afirmou.

Minari disse que a homenagem apenas oficializou um vínculo antigo. “Selim hoje recebe o título de cidadão olimpiense, mas, na verdade, já é olimpiense desde o primeiro dia em que Solange o trouxe a Olímpia.”
Em tom descontraído, ele também relembrou a paixão dos dois pela música e as ocasiões em que Selim o convocava para cantar em reuniões, festas e até durante uma viagem à Argentina. “Espero que a nossa parceria e amizade continue para sempre. Parabéns, meu amigo”, concluiu.

Uma escolha por Olímpia
Nascido em São Paulo, Selim conheceu Olímpia ainda durante a juventude. A aproximação com a cidade ganhou força por meio de Solange Benatti Murad, então colega de faculdade e, mais tarde, sua esposa.

Solange contou que a primeira visita ocorreu em 1979, durante o Carnaval. Os dois ainda eram estudantes de Medicina. Casaram-se em Olímpia, em 1981, mas permaneceram inicialmente em São Paulo, onde já desenvolviam suas carreiras profissionais.
A mudança definitiva ocorreu no fim de 1985, após um convite de Benito Benatti, pai de Solange, para que Selim participasse da condução da empresa da família, a Condumax.

A decisão exigiu que o casal deixasse uma estrutura profissional já estabelecida na capital. Segundo Solange, o marido respondeu sem hesitar: “É lá que eu quero criar meus filhos e é lá que eu quero construir minha vida”.
Ela resumiu a decisão em uma frase: “Você não escolhe onde nasce, mas escolhe onde quer criar raízes. E a escolha do Selim foi por Olímpia”.

Da medicina à atividade empresarial
Antes de se estabelecer em Olímpia, Selim atuou na área médica em São Paulo. Trabalhou no Hospital Leão XIII, no Ipiranga, e no Hospital São Bernardo, onde exerceu funções ligadas aos serviços de urgência e pronto-socorro.

A entrada na atividade empresarial levou o médico a buscar formação complementar em economia, marketing e vendas. Ao lado de Benito Benatti, a quem chamou de pai, mestre e referência profissional, passou a participar da administração da Condumax.

Durante a cerimônia, Selim afirmou ter sido um homem privilegiado por encontrar duas referências paternas. “Tive dois pais: meu pai biológico, Jamil, que moldou o meu caráter, e meu pai e mestre Benito, que me ensinou e esteve ao meu lado em todos os momentos.”

Também agradeceu à sogra, Dirce Benatti, pelo acolhimento familiar, e mencionou os irmãos, filhos, netos, parentes, amigos e colaboradores que participaram de sua caminhada.

Agora, Selim retorna à lide da Medicina, atuando em Longevidade. Nutrólogo, Ortomolecular, Cirurgião-Geral, busca mais uma especialização.

A ligação com o folclore
A relação de Selim com Olímpia também passou pelo Festival Nacional do Folclore. O contato com o professor José Sant’Anna e com Cidinha Manzolli levou o médico a integrar a organização do evento.

Durante mais de dez anos, ele atuou voluntariamente como apresentador do festival. A voz forte e a facilidade de comunicação tornaram-se parte de sua identificação com o Fefol.
A ligação foi lembrada ao fim da cerimônia pelo atual apresentador do festival, Pedro “Malasart” Henrique. Ele reconheceu Selim como mestre e destacou o legado deixado no palco da festa.

A homenagem ganhou música e dança com a entrada do Grupo Parafolclórico Frutos da Terra. Selim deixou o protocolo, pegou o microfone, apresentou Pedro ao público e participou da celebração, que terminou com uma roda de carimbó no plenário.


Também foram exibidas mensagens gravadas pelo grupo Frutos do Pará, pelo amigo Totonho e pela neta Laura, que estava na Escócia e não pôde acompanhar a solenidade presencialmente.

Atuação pública
Selim ocupou uma cadeira na Câmara de Olímpia durante a legislatura de 2017 a 2020 e também exerceu o cargo de secretário municipal de Turismo.

Solange destacou que, durante a passagem do marido pela secretaria, grupos participantes do Festival do Folclore deixaram de ser acomodados exclusivamente em escolas e passaram a ser recebidos em hotéis e pousadas.
Ele também participou de clubes de serviço e de atividades sociais e filantrópicas no município.
O prefeito Geninho Zuliani afirmou que chegou a se esquecer de que Selim não havia nascido em Olímpia, tamanha a ligação construída pelo médico com a cidade.

“Olímpia é grata pela sua presença ao longo dessas últimas décadas”, disse.
O presidente da Câmara, Flávio Olmos, classificou a sessão como uma noite de reconhecimento e gratidão. A homenagem foi proposta pela vereadora Sônia Guerra e aprovada por unanimidade pelos vereadores.

Ao apresentar a trajetória do homenageado, Sônia lembrou as diferentes etapas de sua vida como médico, atleta, empresário, vereador, secretário, pai, avô e amigo.

O batismo como cidadão
Antes da entrega do título, Selim participou de um rito simbólico de acolhimento. Teve as mãos lavadas com água de Olímpia, recebeu uma toalha de linho, um recipiente com terra do município e a bandeira da cidade.

A água representou o batismo do novo cidadão; a terra, as raízes construídas no município; e a bandeira, o vínculo oficial reconhecido pela Câmara.

O título foi concedido pelo Decreto Legislativo nº 722/2026, de autoria de Sônia Guerra, em reconhecimento aos serviços prestados à comunidade olimpiense.

“Olímpia me deu uma vida”
Em seu pronunciamento, Selim disse que a cidade se tornou o cenário de suas realizações, amizades, alegrias e perdas. A homenagem, segundo ele, não representava apenas a concessão de um título, mas o reconhecimento formal de uma história construída ao longo de quatro décadas.

“Olimpia me deu muito. Deu-me trabalho, amigos, uma família, alegrias, perdas que jamais serão esquecidas e muitas dores também. Mas, acima de tudo, Olímpia me deu uma vida”, afirmou.

O médico agradeceu especialmente a Solange, a quem chamou de “Sol” e “Solzinha”, pela força, paciência e parceria durante a caminhada do casal.

“Eu agradeço milhões de vezes a sua força, sua energia, sua paciência e seu companheirismo, que nortearam toda a minha existência.”

Ao encerrar o discurso, Selim voltou ao ponto que atravessou toda a cerimônia: pertencer a Olímpia foi uma escolha feita muito antes do reconhecimento oficial.
“Cheguei a Olímpia em 1985 e, desde então, Olímpia nunca mais saiu de mim. Eu já era olimpiense. Apenas não tinha um documento para provar. Agora tenho.”

A cerimônia terminou com a entrega de flores às mulheres presentes na trajetória do homenageado, fotografias com familiares e amigos e um coquetel oferecido por Selim e Solange em agradecimento à honraria legislativa.












































