DA REDAÇÃO — A morte do jornalista olimpiense Aurélio Carlos Albano (foto), no último sábado (17), provocou grande comoção entre colegas e amigos jornalistas de várias regiões dos estados de São Paulo, do Paraná e até mesmo da Argentina.
A triste notícia gerou a publicação, nas redes sociais, de textos que lamentam a perda e homenageiam Albano. Emocionados, os colegas relataram a amizade de mais de 40 anos com Aurélio, desde que ele deixou Olímpia para estudar Comunicação/Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
“Com a partida prematura de Aurélio Albano, o jornalismo brasileiro perde um grande profissional. Nos formamos pela mesma instituição – a Universidade Estadual de Londrina. Pude acompanhar desde o início a sua trajetória profissional. Ele começou a trabalhar muito cedo. Foram décadas dedicadas ao jornalismo na grande imprensa. Foi reconhecido, e por isso foi líder de editorias importantes nos veículos de comunicação em que atuou. Também foi assessor de imprensa e esteve à frente de campanhas políticas, sempre com olhar estratégico, rigor e talento. Ele deixa muitas lições e, sobretudo, grandes amigos”, destaca a jornalista Cláudia Lacerda, diretora de Comunicação do Semae de São José do Rio Preto.
O Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná também publicou nota de pesar, lembrando que Aurélio teve carreira importante no jornalismo, como repórter e editor da Folha de Londrina e do Jornal de Londrina, além de atuar como assessor de imprensa e redator de rádio. Aurélio teve atuação ainda em assessoria política na Prefeitura de Londrina e na campanha da atual ministra das Mulheres, Marcia Lopes, à Prefeitura de Londrina.
Todos que o conheceram desde que chegou a Londrina, em 1984, ouviam Aurélio falar, com muito orgulho, de Olímpia, “a capital do folclore”, como ele gostava de enfatizar. Fazia cinco anos que havia retornado à cidade natal para morar com sua mãe, dona Teresinha, de 94 anos.
O jornalista Pedro Livoratti, grande amigo de Aurélio, recorda-se de uma cobertura feita por ele, logo no início de sua carreira como repórter, no Jornal de Londrina. “Era 1990, e houve uma manifestação popular em que estudantes e usuários do transporte coletivo enfrentaram a Polícia Militar. A imprensa ficou no meio do levante. Foi uma cobertura tensa. Com um pequeno gravador, Aurélio foi narrando o motim. Na redação, ele transformou sua narração em texto. E o jornal deu página inteira”, afirma.
Livoratti lembra que a carreira de repórter de Aurélio foi curta porque ele logo se destacou na edição. “Na Folha de Londrina, ele chegou rápido à edição de cadernos importantes como Folha Rural e Folha Economia.”
Como editor, Aurélio era rigoroso para que os repórteres entregassem um texto bem escrito, com informações bem apuradas. Ele tinha um texto cuidadoso, com português impecável, e fazia essa exigência a quem trabalhava com ele.

Mesmo quando deixou a redação dos jornais, anos depois, e passou a atuar em assessoria, sempre manteve seu olhar crítico sobre o jornalismo. Quem relata essa característica é Murillo Leal, também jornalista. Eles trabalharam juntos na Assessoria de Imprensa da Universidade Norte do Paraná (Unopar).
Num tom bem-humorado, Murillo lembra das observações inteligentes e perspicazes de Aurélio em relação à cobertura dos jornais. “(…) ele não perdoava texto relaxado, opinião disfarçada de fato ou vaidade fingindo manchete. (…) Tenho saudade daquele cara agridoce que me ensinou a escrever com seriedade. (…) O jornalismo ficou mais órfão. Não perdeu um famoso. Perdeu um guardião importante.”
A editora do caderno de Cultura da Folha de Londrina, Celia Musilli, conta que no sábado, pouco antes de receber a notícia da morte de Aurélio, estava reunida com outros jornalistas e eles conversaram sobre o colega, que não viam havia algum tempo.
“Fiquei pasma com a sincronicidade de falar de alguém pouco antes de saber de sua morte. Se isso tem um significado é o de mostrar que as conexões existem, que as notícias voam mesmo antes dos comunicados oficiais. De alguma forma, o Aurélio esteve conosco e isso se chama amizade”, disse Celia.
E completou: “Vá em paz, Aurélio, tocar sua flauta com os anjos. Você foi um colega de profissão querido e um amigo generoso. Que os amigos sejam generosos com a sua memória tanto quanto você foi generoso com todos nós.”
A música, além do jornalismo
Além de jornalista, Aurélio Albano também é lembrado por seus amigos por tocar na noite londrinense, nos tempos de estudante. No início da década de 1980, músicos mineiros chegaram às rádios de todo o Brasil, conquistando os corações dos jovens. Em Londrina, bares com nomes de sucessos musicais, como Clube da Esquina e Lumiar, recebiam estudantes que subiam aos palcos para apresentar repertório de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, entre outros.
Aurélio estava entre eles, tocando flauta transversal e saxofone. O amigo Pedro Livoratti lembra, com saudades, da parceria musical entre eles. “Aurélio era autodidata. Era impressionante porque tocava muito bem sem ter tido aula de música.”
A produtora cultural Edra Moraes, que mora em Curitiba e estudou Jornalismo com Aurélio, também puxa da memória um momento que ficou marcado em sua vida. “Foi entre 1985 e 1986, em Sapopema, onde acampamos com um grupo de amigos. Pela manhã, uma flauta ecoou sons que trazem na lembrança palavras em ritmo que sabemos de cor. Clareia, manhã… o sol.”
Era a música Nascente, de Milton Nascimento. “Acordamos em poesia. Despertados pelo Aurélio. Que seja a sua passagem nascente de um outro mundo. ‘Clareia, manhã’ é uma doce lembrança, eu diria, das melhores que tenho. Ela traz a sua flauta nos despertando, a lembrança dos amigos que fizemos e a certeza de que encontrar pessoas como você tornou tudo mais fácil. Clareia, manhã… Clareia o caminho do barqueiro. Clareia o destino do meu amigo. O sol vai refletir um novo mundo. Nascente.”
O jornalista Dirceu Herrero, que vive em Maringá, também se recorda do lado musical e poético de Aurélio. Eles moraram juntos em uma república no início da faculdade. “Aurélio era nosso flautista doce, tímido e irônico. Ele amava Lô Borges e tinha alma de poeta. Aurélio carregava o coração eterno de estudante. Foi também um grande profissional. Enquanto choramos sua partida, imagino que já tenha embarcado em seu trem azul. A flauta transversal à mão, está em alguma festa num lugar bom. Um lugar sem medo, onde a solidão não encontra morada, onde todo dia é, simplesmente, dia de viver.”
Ariel Palacios, correspondente da GloboNews na Argentina, foi da mesma turma de Jornalismo de Aurélio na UEL e dá seu depoimento: “Aurélio era um cosmopolita musical. Apreciava Milton, mas se deleitava com uma tocata de Bach. Brincava ao citar um trecho de ‘Palmeira e Luizinho’ e ouvia estupefato a trama de notas de Astor Piazzolla. Quando, em 1986, para uma disciplina cujo nome não recordo, fizemos uma adaptação do conto ‘Casa Tomada’, de Júlio Cortázar, insistiu – e conseguiu – que a trilha sonora fossem duas peças do emblemático bandoneonista argentino: ‘Libertango’ e a menos conhecida ‘Fracanapa’. Foi, pelo menos musicalmente, o mais portenho dos olimpienses.”











































