Por Ivanaldo Mendonça — Somos tomados pela falsa impressão de que o conceito ‘pós-modernidade’, enquanto tentativa de descrever o estágio de desenvolvimento no qual a humanidade se encontra, significa que os antigos problemas não existam mais. O tão sonhado progresso traz consigo muitos benefícios e, ao mesmo tempo, uma dose proporcional de desafios. Sob este aspecto, para além dos avanços visíveis, em sua maioria, traduzidos como sinônimo de bem-estar, deparamo-nos com desafios invisíveis, ou, temporariamente invisíveis, até que eclodam, provocando espanto.

Voltemos nossos olhares e atenção a um dos fenômenos ‘invisíveis’ mais crescentes em nossos tempos: o desamparo. Para o dicionário, desamparo é a condição de quem está abandonado, sem auxílio material ou moral; estado daquilo que caiu no esquecimento, do que está sem proteção, órfão. Considerando a dimensão psicológica, o desamparo vem acompanhado da sensação de vulnerabilidade, solidão, tristeza e medo. O desamparado necessita cuidado, precisam de apoio e carinho.

Num tempo próspero e teoricamente evoluído, estamos reféns do desamparo que, para além do indivíduo atinge, também, a coletividade. O movimento imigratório desencadeado nos últimos tempos; resultado de conflitos internos, em muitos países, gerando fuga em massa, e que coloca seus filhos em condições subumanas, atesta esta verdade. Cresce, assustadoramente, manifestações do fenômeno do desamparo entre crianças, adolescentes e jovens, mas não só entre eles, que reclamam, de forma velada e/ou inadequada, a atenção de seus cuidadores.

Não se confunda ‘desamparo’ com a necessária frustração, própria do processo de desenvolvimento humano, sem a qual não se favorece o amadurecimento. A dor do desamparado pode ocorrer tanto porque não houve amor e cuidado de fato, quanto porque aquele que se sente desamparado não soube ou não quis acolher o amor, da maneira e nas condições nas quais lhe fora dispensado. Por outro lado, aquele que devem amparar, quando não cumpre seu papel de maneira suficiente, torna-se responsável pela dor do desamparo.

Os gritos dos desamparados tornam-se cada vez mais intensos. Continuaremos a ignorar esta verdade como se não fizesse parte de nós, ou, tomaremos a corajosa decisão de desencadear um processo de revisão, que, de forma madura, gere transformações, permitindo-nos ajustar os benefícios externos da pós-modernidade á qualidade de vida saudável, sob todas as dimensões e necessidades? Enquanto esperamos, a dor do desamparo aumenta, queiramos ou não, também, em nós.

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia
[email protected]

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