Por Ivanaldo Mendonça – A busca pela compreensão de fenômenos que, nos tempos presentes, geram e produzem sofrimentos revela, igualmente, inúmeros desafios. A preciosa colaboração das ciências que lidam de forma mais direta com a realidade do sofrimento e a promoção da saúde humana, de maneira particular, a psiquiatria e a psicologia, colocam a disposição o conceito de neurose que, muito embora, de maneira geral, seja abordado a nível individual pode, também, ter como objeto a coletividade.

Objetivamente o dicionário apresenta o termo neurose como um quadro clínico atípico definido por sentimentos e emoções negativas. Dentre os diversos tipos de neuroses que podem afetar uma pessoa estão: fobias, ansiedade, sensação de vazio e não pertencimento, paranóia, isolamento social, apatia, insônia e pessimismo. Uma percepção geral afirma que os indivíduos neuróticos possuem grandes apreensões sobre tudo a sua volta, além de serem emocionalmente vulneráveis e não reagirem bem a mudanças ou críticas.

Os efeitos das neuroses são potencializados, em nossos tempos, pela pandemia do novo coronavírus. Para além dos impactos próprios da contaminação pela Covid-19 que no Brasil já vitimou mais de 500 mil pessoas, são devastadores os impactos diretos da pandemia nas coletividades, tanto nas vitimas diretas dos efeitos sócio-econômicos, quanto naqueles que, mesmo não expostos diretamente sentem-se afligidos. Há quem sequer passara perto do risco de contaminação ou efeitos sociais da pandemia e que entrara num grau de sofrimento extremo.

Muito acrescente à nossa reflexão o pensamento de Viktor Frankl, psiquiatra e pai da abordagem psicológica denominada logoterapia. Os tempos presentes roubam do ser humano aquilo que nele existe de mais específico e próprio: o sentido da vida. As neuroses coletivas são doenças próprias do ‘espírito de cada época’, consequentes da perda do sentido da vida das coletividades e da busca desenfreada por vontade de ‘poder’ e ‘prazer’, elementos que não preenchem os níveis exigidos pela vontade de sentido.

Frankl destaca quatro formas de as neuroses coletivas se manifestarem:

  1. Atitude existencial provisória: manifesta pela compreensão de que se deve ‘viver o dia’ em detrimento da compreensão do sentido da vida como ‘algo mais’;
  2. Atitude fatalista perante a vida: manifesta pela compreensão de um ‘destino inevitável’ que ignora a capacidade de escolha, liberdade e responsabilidade humana;
  3. O pensamento coletivista: manifesto pela atitude de ignorar a si e ao outro, levando á busca por sobressair em meio ás massas, e, consequentemente, afogando-se nelas;
  4. O fanatismo: manifesto pela atitude que ignora o pensar do outro e busca impor-se a todo custo;

Enquanto presos a sintomas e a buscas por explicações que sequer passam perto das reais causas dos sofrimentos coletivos de nossos tempos, a perda do sentido da vida, seguiremos doentes, cada vez mais.. Haja remédio!

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia
[email protected]

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