Por Ivanaldo Mendonça — Diversas correntes filosóficas, políticas e religiosas organizam as relações entre pessoas em categorias, considerando alguns ‘mais’ e outros ‘menos’ iluminados ou capazes. Este pensamento atravessa os tempos, dando vida a modelos de estratificação, da individual à social. Ideias como ‘quem nasce pobre morre pobre’, ‘uma vez burro sempre burro’, ‘rico só anda com rico’, ‘colocar cada um em seu devido lugar’, são frutos desta postura. No universo religioso este pensar ocupa espaço através de expressões como ‘espírito mais evoluído’, ‘espírito menos evoluído’, presentes em várias denominações.

No outro extremo transitam pensamentos, correntes e doutrinas que consideram todos como sendo exatamente iguais, no sentido de possuírem as mesmas potencialidades, habilidades e condições para tomar e imprimir atitudes. Dai originaram-se sistemas teoricamente igualitários que pouco ou quase nada acrescentam, pois enveredam, de alguma forma, igualmente, pelo caminho da estratificação.

Para além de organogramas e fluxogramas, tal reflexão sugere-nos considerar questões mais profundas, para além do nível dos sentidos, desafiando-nos a perscrutar, na medida do possível, o tão famoso e estranho universo interior (o nosso, o dos outros e o da família humana). Temos impressos em nós, modelos mentais, emocionais, comportamentais e espirituais que justificam e autenticam aquilo que somos, pensamos, sentimos e o como agimos.

Durante anos, insisti com um grupo de pessoas, a fim de que conseguissem tornar realidade sonhos comuns. Reuniões, encontros, investimentos, treinamentos, capacitações… Na hora ‘H’ nada ou quase nada acontecia. Nutridos de boas ideias não conseguiam torná-las realidade, mesmo em condições favoráveis. Seriam incapazes e incompetentes? Pertenceriam a uma categoria inferior? Nada disso, pois quando abordados individualmente, os resultados surpreendiam.

Constatou-se: a questão primeira era individual. As experiências pessoais eram preponderantemente marcadas por carências, das físicas às espirituais. Boas pessoas, porém, sem recursos para superar lacunas de ordem pessoal, em sua maioria, fruto da ausência de pais suficientemente bons, o coletivo tornava-se catastrófico; as dores pessoais se encontravam e, como um vulcão em erupção os engolia e devastava o que estava em volta. Sempre que isto lhes era evidenciado, uma hemorragia de ódio e rancor repercutia naquilo que faziam, toando-os autodestrutivos e destruidores.

Concordamos com as teorias estratificantes? Não.

Alimentamos a utopia de que todos são exatamente iguais? Não.

Investiremos num conjunto de pessoas que sequer possui características de grupo? Não.

Faremos de conta que nada aconteceu? Não. Passaremos fogo em tudo? Não.

O caminho é estreito: na medida do possível, colaborar, a que cada um se encontre a si, encontre seu lugar no mundo, na vida, na existência; quem sabe um dia, tomara, alcance condições para pertencer a alguém, a alguma coisa, a um grupo ou equipe.

Cada um deve encontrar o seu lugar, de forma consciente, livre e responsável, e isso, em muito difere de colocar ‘colocar cada um em seu devido lugar’.

Ivanaldo Mendonça

Padre, Pós-graduado em Psicologia

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