Por Ivanaldo Mendonça — A ambição e obstinação, molas propulsoras para tornar realidade sonhos, objetivos e metas são características próprias das novas gerações, traços reforçados, sobretudo, quando se reconhecem responsáveis por superar seus predecessores. Em cada tempo estas características, ambição e obstinação, assumem nuances próprias. Ainda hoje, como resquício do sistema capitalista, que tantos já consideram falido, impera o conceito segundo o qual a pessoa vale aquilo que possui e, como para possuir deve-se produzir, consequentemente, a pessoa vale aquilo que produz.

Os efeitos negativos dessa realidade tornam-se, objetivamente, cada vez mais evidentes e, contraditoriamente, imperceptíveis do ponto de vista subjetivo. Por um lado, aumentam os distúrbios relacionados á ambição e obstinação que, para além do nível suficiente, enquanto forças inspiradoras, convertem-se em forças destruidoras, tanto do indivíduo quanto da coletividade. Por outro lado, a inibição do senso crítico e a massificação intimamente relacionada á má qualidade da educação, propositalmente, bloqueiam, no indivíduo, a capacidade de reflexão.

Resulta desse embate que, tanto individual quanto socialmente, identifiquem-se causas e busquem-se soluções de onde elas nunca saíram e onde nunca poderão estar. Salta aos nossos olhos o conflito relacionado á compreensão de ‘limite’ e suas implicações. O ideal de perfeição e o nível de exigência, interno e externo, são tão altos que ‘limite’ passa a ser considerado defeito; quando não ultrapassa ou supera determinada marca, o indivíduo considera-se, e é considerado, como fracassado, perdedor, incompetente e, por isso, indigno de ocupar determinado espaço ou função.

Limite, ensina o dicionário, é a linha que determina uma extensão espacial ou que separa duas extensões; momento, espaço de tempo que determina uma duração ou separa duas durações; uma divisão, física ou simbólica, marcando uma separação entre dois corpos, espaços, realidades. São diversos os tipos de limite: espacial-territorial, físico-estrutural, mental, emocional-psíquico e espiritual. Considerem-se, também, suas dimensões: pessoal (consciência de si), relacional (consciência do outro), educacional (processo de formação) e social (convenções e consensos).

Equívocos e distorções que confundem limite com defeito levam pessoas e sociedade a adoecer.  O limite é amigo, muito nos ensina: ele sinaliza e determina até onde podemos ir, desperta a consciência e auto-percepção, move-nos ao encontro do outro, favorece a compreensão de que não somos únicos e exclusivos, abre-nos perspectivas, pois a realidade é muito mais ampla do que podemos alcançar. Temos medo do limite porque, silenciosamente ele nos diz: você só pode chegar até aqui. Perdemo-nos no equívoco deixando de ser o melhor que podemos. Limite não é defeito.

 

 

 

 

 

 

Ivanaldo Mendonça

Padre, Pós-graduado em Psicologia

[email protected]

 

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