Por Ivanaldo Mendonça — O dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, através do qual, pela força da fé e do amor, fazemos memória dos entes queridos que encerraram, antes de nós, seu tempo na dimensão predominantemente marcada pela materialidade, concede-nos a oportunidade de, para além de uma data comemorativa, rezar, contemplar, refletir e partilhar acerca dos movimentos nos quais a dinâmica da morte nos insere.

Antes de tudo, a experiência da morte evidencia quão criados para a vida somos, a ponto de a assumirmos como um breve instante, como uma vírgula no contexto da história que cada ser humano tem a oportunidade de escrever, através de sua existência, ultrapassando as medidas impostas pelo físico, pelo mental, pelo intelectual, pelo material, pelo econômico… O ‘simples’ fato de celebrar a morte, mesmo sem considerar o viés espiritual e/ou religioso, lança-nos, de maneira consciente, ou não, diante do grande mar da vida, que ultrapassa o tempo presente.

Nesse cenário ocupa lugar especial a realidade do luto. A grande dificuldade que boa parte das pessoas manifesta quando colocadas diante da realidade da morte é, de pronto, uma possível explicação ou resposta ao sofrimento no qual mergulham, pelo simples fato de não se permitirem digerir uma das poucas certezas que temos: a experiência da morte. Nesse sentido vale a pena contemplar o luto como uma experiência necessária, mais do que desejada ou buscada.

A literatura explica o luto como sendo um estado emocional específico, que se inicia pela ameaça ou rompimento de um vínculo de amor e se caracteriza como um período de enfrentamento da dor da perda. Embora associado à morte humana, o luto pode ser vivido diante de perdas significativas: morte de um ente querido, perda do emprego, mutilação de parte do corpo, morte de um animal de estimação, fim de um relacionamento… Esta experiência é vivida de forma singular; mesmo diante de uma perda comum a várias pessoas, cada uma delas experimenta o luto de forma única.

Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra, identifica cinco fases deste processo:

  1. Negação: marcada pela não aceitação da perda como a fuga da verdade inconveniente que faz sofrer;
  2. Raiva: marcada pela angústia, medo, desespero e frustração associados, muitas vezes, á agressividade, como recusa a aceitar a perda;
  3. Barganha: marcada por negociações consigo mesmo ou com uma realidade superior acerca de possíveis trocas que evitariam a perda, na tentativa de amenizar a dor;
  4. Depressão: marcada pela queda profunda no sofrimento diante da perda e na recusa por superar esta dor. Muitos acabam por desenvolver o transtorno depressivo.
  5. Aceitação: caracterizada pela aceitação da realidade marcada pela ausência de quem partiu; desenvolve-se a habilidade de conviver, pacificamente, com a perda.

Se a morte pode ser vista como um breve instante do existir, o luto deve ser considerado como um processo necessário, que nos permite ir além: se diante da dor pela morte de um ente amado, favorece que o amor seja, de fato, aquilo que é, perpetuando-se, para além do tempo e da materialidade; se diante da dor por rompimentos a serem superados, favorece que revisemos o caminho percorrido, as escolhas feitas, acumulemos aprendizados e sigamos em frente.

Por que choras? Choro porque sinto! Sinto porque amo! Amo porque pertenço á eternidade.

Ivanaldo Mendonça

Padre, Pós-graduado em Psicologia

[email protected]

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